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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O Império do grotesco

O grotesco se caracteriza pelo rebaixamento operado por uma combinação insólita e exasperada de elementos heterogênos, com referência freqüente a deslocamentos escandalosos de sentido, situações absurdas, animalidade, partes baixas do corpo, fezes e dejetos. O grotesco é o fenômeno da desarmonia do gosto, que atravessa as épocas e as diversas co nformações culturais. O grotesco é algo que se tem feito presente na Antigüidade e nos tempos modernos. Atravessa tempos diversos, à maneira de uma constante supratemporal.
 
É antiqüíssimo, por exemplo, o procedimento grotesco de identificação figurativa entre o homem e o animal, fazendo-se presente nas fáb ulas e em sistemas morais. Muitas vezes, a identificação passa pela referência ao excremento como metáfora para o rebaixamento frente a valores tidos como sublimes ou para uma radical ausência de qualidades. O grotesco representa o grau zero da condição humana. O grotesco, assim, não opta por nenhuma moral progressista ou positivista. Muito pelo contrário, o grotesco funciona por catástrofe.

A palavra “grotesco” vem do italiano “grotta”, que significa “gruta” ou “porão”. Em fins do século XV, escavações feitas no porão do palácio romano de Nero revelaram ornamentos esquisitos – na forma de vegetais, abismos, caracóis, etc. – que fascinaram os artistas da época, que passaram a chamar tais objetos esquisitos de “grotescos”, em referência às grutas ou porões em que foram= encontrados. Em seguida, a denominação “grotesco” aplicou-se à combinação bizarra de elementos humanos, animais, vegetais e minerais. Sempre associada ao disforme, a palavra “grotesco” foi ganhando significados novos, em geral associados ao desvio de uma norma expressiva dominante, seja referente a costumes, seja referente a convenções culturais.
 
O grotesco assume modalidades diversas:
a) escatológica: trata-se de situações caracterizadas por referências a dejetos humanos, secreções,
partes baixas do corpo, etc.:
b) teratológica: referências risíveis a mons truosidades, aberrações, deformações, bestialismos, etc.
 
No grotesco, a excrescência e o nojo são apresentados como o antídoto para a banalidade da existência humana. O grotesco revela-se na exasperação tensa ou violenta dos contrários, com recursos da caricatura, da sátira e da ironia. Manifesta-se também pela crueldade com que se tiram os véus das regras ou das convenções ditas civilizadas.

O grotesco tem obsessão pela corporalidade humana – comer, defecar, copular, arrotar, vomitar. Também se faz referência à nudez e ao sangue. O grotesco é uma categoria ampla, com vários aspectos, capaz de aplicar-se a uma infinidade de situações: da escultura e pintura à literatura, ao cinema e à televisão. No caso da televisão, tem -se a tendência recente desse veículo é testar os limites de sua audiência. 

Nossa TV caracteriza-se por uma atmosfera sensorial de “praça pública”, a praça como “feira livre” das expressões diversificadas da cultura popular (melodramas, danças, circo, etc.)
A televisão para as massas tornou-se importante dispositivo de articulação de um espaço público ao constituir como seu público categorias sociais as mais diversas, sob a bandeira uniformizante do consumo de massa.

A televisão se especializou num tipo de programa voltado para a ressonância imediata, atuando sobre a imediatez da vida coditiana. E como procedimento básico a TV privilegia fortemente a óptica do grotesco. Primeiro, porque suscita o riso cruel (o gozo com o sofrimento e o ridículo do outro); segundo, porque a impotência humana, política ou social de que tanto se ri é imaginariamente compensada pela visão de sorteios e prêmios, uma vez que se tem em mente o sentimento crescente de que nenhuma política de
 
Estado promove ou garante o bem -estar pessoal; terceiro, porque o grotesco chocante permite encenar o povo e, ao mesmo tempo, mantê-lo a distância – dão-se voz e imagem a ignorantes, ridículos, patéticos, violentados, mutilados, disformes, aberrantes, para mostrar a crua realidade popular, sem que o choque daí advindo chegue às causas sociais, mas permaneça na superfície irrisória dos efeitos. Na realidade, as emissoras oferecem aquilo que elas e seu público desejam ver. O sistema televisivomercadológico constituiu esse público que, ao longo dos anos, tornou-se ele próprio “audiência de TV”.

O telespectador, entretanto, não é vítima, e sim cúmplice passivo de uma situação a que se habituou. Em sua existência miserável, costuma o telespectador sonhar com o acaso que o levará, pela sorte, a ser chamado pela produção de um “reality show” para transformar em espetáculo a sua aberração existencial e sair de lá com um eletrodoméstico qualquer como prêmio. O grotesco, dessa maneira, é o que arranca o telespectador de sua triste paralisia.
 
No tocante ao público, não se sustentam as hipóteses de um “voyeurismo” freudiano com relação ao “reality show”, pois o que se evidencia mesmo não é uma sexualidade de fundo, mas a fusão entre a banalidade dos fluxos televisivos e a existência banal dos telespectadores. Após décadas de rebaixamento de padrões, o público em geral tornou-se esteticamente parte disso que os especialistas chamam de “trash” (lixo).
Daí o império da repetição exaustiva do banal.


Contudo, o quadro adverso não aniquila a força expressiva intrínseca da televisão. “Recusar um meio de comunicação que se dirige a milhões de pessoas é no mínimo burrice”, sublinhava em 1974 o saudoso Oduvaldo Vianna Filho, Vianinha. Trata-se, isto sim, de reivindicar uma outra TV, muito menos grotesca e mais afim com o seu papel de veículo de entretenimento que precisa contribuir para a formação cultural e educacional.

SODRÉ, Muniz e PAIVA, Raquel. O império do grotesco. Rio de Janeiro, Mauad, 2002, 154 p.

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